Análise
O mesmo número, milhares de vezes
Como 4.298 seções chegaram a 264 votos válidos — e o que essa repetição ensina sobre a eleição.

O número era o mesmo: 264. Ele apareceu no resultado de 4.298 seções eleitorais brasileiras no segundo turno de 2026. Milhares de grupos de eleitores, o mesmo total de votos válidos. Para quem encontra essa repetição pela primeira vez, a pergunta é quase inevitável: como tanta gente chegou à mesma conta?
A escala da eleição ajuda a responder. Com quase meio milhão de seções e uma quantidade limitada de eleitores em cada uma, os totais possíveis acabam se repetindo. Algo semelhante aconteceria numa contagem das salas de aula do país: milhares teriam o mesmo número de alunos, embora fossem formadas por pessoas diferentes.
Saber que coincidências acontecem, porém, é apenas o começo. O passo seguinte é descobrir se elas aparecem mais vezes do que seria esperado. Para examinar essa e outras dúvidas sobre os resultados, o levantamento que embasa esta reportagem comparou eleições, simulou contagens no computador e conferiu arquivos públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O trabalho encontrou explicações para números que, isolados, podem impressionar. Encontrou também uma mudança que ainda exige investigação: o aumento das seções com comparecimento de pelo menos 95% do eleitorado.
O propósito desta análise
Esta reportagem examina dados eleitorais, sem preferência partidária, com os mesmos critérios para os candidatos. As conclusões se limitam às perguntas investigadas; o que permanece sem explicação está indicado no texto.
Quanto de repetição é esperado?
O endereço da coincidência faz diferença. Uma escola pode abrigar diversas seções, cada uma reunindo os eleitores de uma mesa, normalmente com uma urna. Acima delas está a zona eleitoral, que agrupa várias seções e pode incluir mais de um município. Quanto maior o grupo, mais possibilidades existem para a soma final.
Foi nas zonas que o levantamento pôs a repetição à prova. Entre as 2.640 analisadas no Brasil, apareceram 42 pares com o mesmo total de votos válidos. Era muita coincidência? Para ter uma referência, o computador simulou 10 mil eleições, usando o tamanho do eleitorado e as proporções de votos observadas em cada zona, mas deixando as contagens variarem ao acaso.
A eleição real ficou perto da média das simulações: 42 pares iguais, diante de 44,6 no computador. Em cerca de duas de cada três rodadas, a simulação produziu pelo menos tantas coincidências quanto as encontradas nos dados. A repetição cabia no comportamento previsto pelo modelo.

O teste não calcula a chance de uma eleição ter sido fraudada. Ele responde a uma pergunta mais específica: nessa simulação, um total de 42 pares iguais seria surpreendente? Os resultados mostram que não.
Nas seções, o fenômeno ganhou outra dimensão. Das 497.897 examinadas no Brasil, 497.885 dividiam seu total de votos válidos com pelo menos outra. Foi nessa contagem que o número 264 apareceu 4.298 vezes.
Houve também comparações menos simples. Ao procurar seções com os mesmos votos para os dois candidatos, o estudo encontrou mais repetições do que a simulação previa. O excesso, porém, foi parecido em 2022 e em 2026. Isso pode refletir uma simplificação do modelo, que não reproduz todas as características da votação. A diferença não permite identificar, sozinha, uma manipulação.
Uma eleição apertada pode ter seções quase unânimes
Há outra maneira de um resultado chamar atenção: um candidato quase não receber votos. No segundo turno de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) não passou de dez votos em 3.042 seções. Nelas, Lula (PT) somou 395.215. Apresentado em um vídeo do Jornal da Cidade Online após a eleição, o recorte conferiu com os arquivos do TSE. A questão seguinte era saber se aquele quadro tinha precedentes.
A comparação com 2022 acrescenta uma informação: Jair Bolsonaro recebeu até dez votos em 4.118 seções naquele ano. Em 2018, foram 7.620. E há um resultado menor na série: em 2002, José Serra, adversário de Lula no segundo turno, ficou nesse intervalo em 1.300 seções.

Como o eleitorado cresceu e o número de seções mudou, a comparação precisa considerar também as proporções. As seções com até dez votos para o adversário do PT representavam 0,87% do total analisado em 2022 e 0,61% em 2026.
Olhando os mesmos locais, a continuidade fica mais clara. Entre as seções do grupo de 2026 que puderam ser encontradas em 2022, cerca de 82% já tinham dado até dez votos a Jair Bolsonaro.
O resultado nacional reúne comunidades que votam de maneiras muito diferentes. Uma disputa apertada no país pode conviver com ampla preferência por um candidato em determinadas localidades. O levantamento identificou a persistência desse padrão, mas não apurou por que cada comunidade votou como votou.
Um voto da manhã pode aparecer na apuração à noite
Além do lugar, é preciso olhar para o relógio certo. Um voto dado pela manhã pode aparecer no resultado divulgado apenas à noite. Isso acontece porque a escolha do eleitor entra na apuração quando o boletim de toda a seção é recebido e processado. Se o boletim chega depois das 19h, leva consigo os votos da manhã e da tarde.
Foi essa diferença entre os relógios da votação e da apuração que se perdeu nas alegações sobre votos tardios. O levantamento publicado pelo TSE contou 34.393 votos registrados após as 17h no Brasil. A vantagem final de Lula sobre Flávio foi de 4.430.191 votos.

Para testar se os votos tardios poderiam mudar o vencedor, basta levar a hipótese ao extremo: se todos fossem de Lula e fossem retirados de sua votação, a vantagem ainda passaria de 4,39 milhões. O cálculo não propõe excluir votos válidos. Mostra o alcance que aquele conjunto de votos poderia ter sobre o resultado.
O TSE informou que o recebimento dos boletins, a totalização e a divulgação foram suspensos durante a prorrogação da votação, com retomada após as 19h. Assim, a hora em que um número apareceu no painel não revela quando o eleitor votou. A distinção está no esclarecimento oficial atualizado em 6 de novembro.
A conta que atravessa os dois turnos
A comparação entre os turnos traz uma conta que parece não fechar à primeira vista. Lula ganhou 10.376.694 votos e Flávio, 3.721.538. Somados, esses ganhos superaram os votos recebidos pelos demais candidatos no primeiro turno. De onde veio a diferença?
Faltavam duas parcelas nessa comparação: mais eleitores compareceram no segundo turno, e o total de votos brancos e nulos diminuiu. Incluídas as duas mudanças, os valores fecham exatamente.

São saldos de uma eleição para outra. Eles não mostram o caminho de cada voto: quem deixou um candidato por outro, quem passou a comparecer ou quem deixou de votar. A conta confere os totais, sem romper o sigilo da escolha individual.
Quando a digital não é reconhecida
Outra cifra impressiona pelo tamanho: 8,6 milhões. Mais precisamente, 8.632.488 habilitações de eleitores com biometria que votaram sem o reconhecimento da digital, segundo os boletins. O número corresponde a 6,73% do comparecimento no segundo turno e também entrou nas discussões sobre o resultado.
Esse registro se refere à identificação do eleitor. A escolha do candidato continua sendo feita na urna eletrônica. Para dimensionar o número, o estudo voltou a 2022: foram 10.011.346 habilitações equivalentes, ou 8,06% do comparecimento.

Quando a digital não é reconhecida, o procedimento descrito pelo TSE prevê conferir o documento e os dados do eleitor, além de etapas como a confirmação do ano de nascimento e a assinatura no caderno de votação.
Os boletins não revelam em quem essas pessoas votaram. Por isso, comparar o total de habilitações sem digital com a diferença entre candidatos não permite atribuir a vitória a esse grupo. Tampouco informa quantas habilitações seriam irregulares.
Ao comparar seções dentro da mesma zona, o levantamento encontrou uma associação muito pequena entre habilitação sem digital e voto em Lula. Investigar a regularidade de um atendimento específico, porém, exigiria os registros de identificação e presença daquele eleitor.
Conferir o resultado, seção por seção
Depois das coincidências, dos horários e das comparações históricas, resta uma conferência básica: os números de cada seção correspondem aos que entraram na soma final? O caminho passa pelo boletim de urna, emitido ao fim da votação com os votos dos candidatos, os brancos e os nulos. É a soma desses resultados que forma a totalização.
O estudo comparou 499.205 boletins do arquivo consolidado do TSE com os resultados por seção do segundo turno. Em todas as seções presentes nos dois arquivos, os números coincidiram nos seis campos examinados: votos de cada um dos dois candidatos, brancos, nulos, eleitores aptos e comparecimento.

As 43 seções que constavam na totalização sem boletim correspondente estavam sem votos. Elas ficaram fora da contagem dos 499.205 boletins conferidos.
Esse resultado confirma a concordância entre as duas bases publicadas pelo TSE. A verificação não examinou todo o funcionamento da urna nem demonstrou se cada voto foi registrado exatamente como digitado. A assinatura digital dos boletins, usada para conferir sua autenticidade, não foi validada no trabalho. No primeiro turno, a comparação foi por amostra.
Uma pergunta continua aberta
Ao fim das comparações, uma mudança ainda pedia explicação. Em 2022, 232 seções brasileiras do recorte analisado tiveram comparecimento de pelo menos 95% dos eleitores aptos. Em 2026, foram 639. A proporção passou de aproximadamente 0,05% para 0,13% das seções.

O crescimento não demonstra fraude, mas também não ganhou uma causa verificada no levantamento. A comparação nacional não permite atribuí-lo à prorrogação do horário nem descartar a influência dela nos locais afetados.
Para entender o que aconteceu, seria preciso voltar a essas seções e examinar as mudanças no cadastro e os registros de votação. É uma etapa diferente de encontrar uma coincidência numa tabela: exige buscar os documentos capazes de explicar por que o número mudou.
Como esta reportagem foi feita
A imagem de abertura é uma ilustração gerada por inteligência artificial; não representa a distribuição real dos votos. Os sete infográficos foram construídos a partir dos números do estudo.
A reportagem adapta o estudo conduzido por Fred Danin com apoio de Claude e Codex entre 28 e 31 de outubro de 2026. Foram usados arquivos públicos do TSE de votação por zona e seção, boletins consolidados e arquivos individuais de urna. Os números e gráficos desta versão foram reconferidos nas saídas preservadas do estudo; a coleta e todas as simulações não foram refeitas para esta reportagem.
A comparação principal é entre os segundos turnos de 2026 e 2022. A série de seções com até dez votos para o adversário do PT vai de 2002 a 2026 e inclui o exterior. Já as análises de coincidências e de comparecimento usam seções do Brasil, sem o exterior; os recortes estão indicados em cada gráfico.
Para as zonas com totais repetidos, foram simuladas 10 mil eleições a partir do eleitorado e das proporções observadas de votos válidos e de votos por candidato. A faixa mostrada no gráfico contém os 95% centrais dos resultados dessas simulações. Ela depende das hipóteses do modelo.
As contagens foram comparadas com os arquivos de resultados do próprio TSE. Essa concordância não é uma certificação externa do sistema eleitoral. A análise não valida assinaturas digitais nem identifica o voto individual. Os esclarecimentos oficiais sobre horários e biometria foram consultados em 8 de novembro de 2026. Não foram realizadas entrevistas para esta reportagem.
Direto da fonte
- TSE: resultados de 2026: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2026
- TSE: resultados de 2022: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2022
- TSE: boletins de urna de 2026: https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2026-boletim-de-urna
- TSE: votos registrados após as 17h: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-mais-de-34-mil-votos-foram-registrados-apos-as-17h-no-2o-turno
- Justiça Eleitoral: horários e biometria: https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/checagens/2026/relatorio-apocrifo-distorce-dados-para-sugerir-fraude-nas-eleicoes-2026
Como esta matéria foi feita
Escrita por Fred Danin com apoio de inteligência artificial. Fontes listadas acima. Como fazemos · Pedir correção